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Adolescentes e IA: o que está mudando silenciosamente na escuta emocional

Um retrato clínico a partir do relatório do Pew Research Center

26 de março de 2026 9 min de leitura Eduardo Miranda

A maioria dos debates sobre adolescentes e inteligência artificial gira em torno do impacto nos estudos. Mas o relatório do Pew Research Center,1 publicado em fevereiro de 2026, revela que uma parcela crescente desses jovens já está usando chatbots de formas bem mais pessoais — e que isso está acontecendo, em grande medida, fora do conhecimento e da aprovação dos pais.

Fonte: Pew Research Center, fev/2026 — 1.458 adolescentes americanos de 13 a 17 anos

Um uso que vai além das tarefas escolares

Entre os 1.428 adolescentes de 13 a 17 anos entrevistados, 12% disseram ter usado chatbots para obter apoio emocional ou conselhos. Outros 16% relataram ter usado essas ferramentas para conversas casuais. O próprio relatório aponta que preocupações sobre o uso de chatbots por jovens para companhia já chamaram a atenção de pais, defensores e legisladores.

Ao mesmo tempo, o relatório é claro em contextualizar: a maioria dos adolescentes ainda não faz esses usos. O uso emocional e conversacional representa uma minoria — mas uma minoria expressiva o suficiente para merecer atenção de quem atende jovens na clínica.

12%
usaram chatbot para apoio emocional ou conselhos
16%
usaram para conversas casuais
1.428
adolescentes de 13 a 17 anos entrevistados

Quem usa mais: diferenças por raça e etnia

O relatório identificou diferenças importantes no uso emocional de chatbots entre grupos raciais e étnicos que merecem atenção específica.

Entre os adolescentes negros, 22% disseram ter usado chatbots para obter apoio emocional ou conselhos — em comparação com 13% entre hispânicos e 8% entre brancos. O relatório também aponta que adolescentes negros têm maior probabilidade de usar chatbots para conversas casuais (22% versus 14% entre brancos), enquanto adolescentes hispânicos não diferem estatisticamente de nenhum dos dois grupos nesse quesito.

Essas diferenças aparecem de forma consistente em outros tipos de uso também: adolescentes negros e hispânicos têm maior probabilidade de usar chatbots para buscar informações, auxiliar em tarefas escolares, resumir conteúdos e criar ou editar imagens, em comparação com seus pares brancos.

O que os pais sabem — e o que não sabem

Um dos achados mais relevantes do relatório diz respeito à distância entre a percepção dos pais e o comportamento real dos adolescentes.

Quando perguntados diretamente, 64% dos adolescentes reportaram usar chatbots. Entre os pais, apenas 35% acreditam que seus filhos usam essas ferramentas — uma diferença de 29 pontos percentuais. Além disso, cerca de 28% dos pais disseram não saber se seus filhos usam chatbots.

O que os adolescentes dizem

  • 64% afirmam usar chatbots
  • 12% para apoio emocional
  • 16% para conversas casuais

O que os pais acreditam

  • 35% acreditam que seus filhos usam
  • 28% simplesmente não sabem
  • 35% conversaram com os filhos sobre o tema

Sobre conversas em família, o relatório aponta que apenas 35% dos pais disseram conversar com seus filhos sobre o uso de chatbots. Isso significa que aproximadamente quatro em cada dez pais nunca tiveram essa discussão.

Se você atende adolescentes, vale considerar: o que pode estar sendo elaborado fora da sessão — e não chega até você? O próprio relatório reforça esse descompasso: enquanto 64% dos adolescentes afirmam usar chatbots, apenas 35% dos pais acreditam que seus filhos fazem isso.

O que os pais pensam sobre o uso emocional especificamente

O relatório perguntou diretamente aos pais se aprovariam diferentes usos de chatbots por seus filhos. O resultado para o uso emocional foi o mais restritivo de todos os itens avaliados.

Apenas 18% dos pais disseram que aprovariam que seus filhos obtivessem apoio emocional ou conselhos de um chatbot. Este foi o único uso em que a maioria dos pais se posicionou contrariamente: 38% disseram que não aprovariam, e 20% disseram não ter certeza.

Para fins de comparação: o uso mais aceito pelos pais foi a busca de informações, com 70% de aprovação. O uso para conversas casuais, o segundo menos aprovado, obteve 38% de aprovação — ainda acima do uso emocional.

Há também diferenças por renda nesse ponto: 30% dos pais em domicílios com renda abaixo de 30 mil dólares anuais disseram aprovar o uso emocional, enquanto esse percentual cai para 16% entre pais de renda intermediária (30 mil a 74.999 dólares). O relatório também aponta que pais negros são mais receptivos a esse uso do que pais hispânicos ou brancos.

Como os adolescentes avaliam o impacto da IA em suas próprias vidas

O relatório também investigou como os próprios adolescentes percebem o impacto da IA — não apenas o uso, mas o que esperam dela no futuro.

De forma geral, os adolescentes tendem a ver o impacto da IA sobre suas próprias vidas de maneira mais positiva do que negativa: 36% acreditam que a IA terá um impacto positivo sobre eles pessoalmente nos próximos 20 anos, enquanto 15% preveem impacto negativo e 32% esperam um impacto igualmente positivo e negativo.

Quando a mesma pergunta é feita em relação à sociedade como um todo, o quadro muda: 26% preveem impacto negativo para a sociedade — percentual significativamente maior do que os 15% que preveem impacto negativo para si mesmos.

Entre os adolescentes que veem a IA de forma negativa para a sociedade, os principais motivos citados foram:

  • Dependência excessiva e perda do pensamento crítico ou criatividade (34%)
  • Perda de empregos (25%)
  • Desinformação e dificuldade de distinguir o que é real (13%)
  • IA pode ser mal utilizada ou representa uma ameaça (13%)

Confiança no uso: alta exposição, confiança moderada

Apesar da ampla adoção, a confiança dos adolescentes no uso de chatbots é variada. O relatório aponta que mais de 95% dos adolescentes já ouviram falar de chatbots de IA, sendo que 50% disseram ter ouvido "muito" sobre eles.

No entanto, apenas 26% se disseram extremamente ou muito confiantes em sua capacidade de usar chatbots. Outros 31% se disseram razoavelmente confiantes, e cerca de 7% relataram pouca ou nenhuma confiança. Os demais 36% fazem parte do grupo que não usa chatbots.

O relatório também identificou diferenças por raça: 37% dos adolescentes negros disseram ser extremamente ou muito confiantes, em comparação com 26% dos hispânicos e 23% dos brancos.

O que o relatório não responde — e o que isso significa

O relatório não responde, e talvez não pudesse responder, as perguntas mais importantes para quem atua diretamente com adolescentes:

  • O que exatamente está sendo dito nessas interações?
  • Com que frequência elas acontecem?
  • Elas substituem, complementam ou coexistem com a terapia?

Mas mesmo sem essas respostas, um ponto já está estabelecido: parte do processo subjetivo desses jovens pode estar acontecendo fora do setting clínico.

Para quem está na prática: cada vez mais, entender o que acontece entre sessões tende a ser tão relevante quanto o que acontece durante elas. O relato do adolescente sobre o que conversa com um chatbot pode ser tão clinicamente significativo quanto o sonho que ele trouxe na semana passada.

O relatório também não avalia se esse uso substitui, complementa ou é independente de outras formas de suporte — sejam elas familiares, de profissionais ou de pares. O que os dados estabelecem com clareza é que esse comportamento já existe, que ocorre em maior proporção em alguns grupos do que em outros, que os pais em grande parte desaprovam e frequentemente desconhecem esse uso específico, e que o tema raramente é discutido abertamente em família.

O que isso significa para a prática clínica com adolescentes

Se uma parcela dos adolescentes já busca apoio emocional em sistemas disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana, responsivos e sem fricção, então a experiência de "ser escutado" começa a se deslocar do setting terapêutico tradicional para outros espaços.

"Como sustentar profundidade, vínculo e qualidade de escuta em um cenário onde parte da experiência emocional já ocorre fora da sessão?"

Não se trata de competir com a tecnologia. Trata-se de ampliar a capacidade de escuta dentro de um novo contexto — onde o que acontece entre as sessões tem tanto peso quanto o que acontece durante elas, e onde o terapeuta que atende adolescentes precisa de ferramentas para acompanhar essa complexidade sem aumentar sua carga operacional.

O relatório do Pew Research Center oferece um retrato quantitativo inédito de como adolescentes americanos estão incorporando chatbots de IA ao seu cotidiano emocional. Os números são claros: o uso existe, é mais prevalente em determinados grupos demográficos e acontece majoritariamente fora do conhecimento e da aprovação dos pais.

Para qualquer profissional que trabalha diretamente com adolescentes, esses dados representam um ponto de partida concreto: o tema já faz parte da realidade dos jovens, mesmo que ainda não faça parte das conversas ao redor deles.

1 Fonte: Pew Research Center, "New Teens Use and View AI", fevereiro de 2026. Pesquisa conduzida entre 25 de setembro e 9 de outubro de 2025, com 1.458 adolescentes americanos de 13 a 17 anos e seus pais.

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